
Mãe, foi principalmente a você que coube a minha educação, sobretudo no capitulo modos a mesa, arrumação do quarto, etc. A senhora não foi preguiçosa, teria sido mais fácil fazer do que ensinar. Mas a senhora teve coragem, me ensinou, e começou cedo para que os bons hábitos se tornassem uma segunda natureza e não um procedimento para se ter só na frente das visitas. A senhora foi rigorosa. Eu te odiei às vezes. A senhora quis me esganar freqüentemente. Faz parte entre as pessoas que se amam. E por diversas vezes chegaram à senhora dizendo o quanto o seu filho é educado, prestativo, gentil, querido. A senhora sempre “desmaiava” de surpresa e felicidade.
Nunca me esqueço da historia daquela sua amiga que se dirigiu a uma especialista de boas maneiras para saber com que idade deveria colocar seu filho no curso. Ao saber que o futuro aluno estava com três meses de idade, ela respondeu: “mas talvez já seja muito tarde”. Hahahahaha
A senhora nunca morreu de vergonha nas vezes que dei um vexame na frente de suas amigas. Nunca valorizou meus erros nem nunca me deu bronca em publico. E principalmente, nunca me tratou como se eu fosse um débil mental. Sempre me ensinou a usar bom vocabulário.
O palavrão. É dito por todos. Até em televisão, escrito nos jornais, etc. Pretender que eu não repetisse seria puro delírio, mas me ensinou a moderar. E a regra de ouro foi: “palavrão na linguagem corriqueira é uma coisa, mas não pode ser usado jamais na hora da raiva, da briga”.
A senhora ensinou, me obrigou a cuidar da bagunça que fazia. “O copo de Coca-Cola? De volta pra cozinha; A revistinha que acabou de ler? Para o quarto; Os milhares de papeizinhos de Bis? Amassar e jogar no lixo”. A lista não tinha fim porque a minha imaginação para instalar o caos onde quer que esteja também era infinita.
Alguns mandamentos:
- Não sair pra se servir correndo na frente dos outros.
- Não deixar cair um grão sequer na mesa.
- Não encher demais o prato. Há fome no mundo, etc, etc... Se encher que coma tudo.
- A partir dos cinco anos, não cortar a carne toda de uma vez. Cinco? Talvez eu tenho exagerado. Sete.
- Não misturar carne com peixe, macarrão com farofa, etc. isso é cultura.
- Pedir licença pra se levantar quando a refeição terminar.
- Não bater a porta do quarto com estrondo nem quando brigar com o irmão.
- Só gritar se for por mordida de cobra.
- Ficar mudo, estático dentro do elevador.
- Não chamar a amiga da mãe de tia. Alias não chamar ninguém de tia a não ser as tias de verdade. E só pra deixar bem claro: tia Maria, tia Cléia, nunca tia só.
Bons tempos eram aqueles. Sem preocupações, apenas correria, brincadeiras. Eu passava no espaço de quinze centímetros que existe entre o sofá e a mesa, brincava de pique numa sala de dois por três.
Colocam a cadeira na frente da televisão, me pendurava nos lustres, pintava as paredes da sala, o teto e etc, etc e tudo aos gritos.
Eu penso que esta talvez seja a fase de maior energia do ser humano.
Ah, é a idade das guerras de travesseiros, das almofadas que voam pela janela.
Era ótimo!!!! Mas as crianças crescem, e eu cresci. E logo passei a trazer a namorada pra dormir em casa. Dinheiro para o Motel só se a senhora ou meu pai desse. Então o que fazer?
Claro, a senhora compreendia a situação, mas francamente, voce ficava meio sem jeito em ter que cruzar no corredor com a gatona despenteada de camiseta e escova de dente na mão perguntando: "Tia, dá pra me emprestar uma escova de cabelo?" ; “OK, dá”.
Mesmo os filhos mais modernos costumam ser caretésemos em relação as suas próprias mães. E eu não fujo a regra. Portanto, quando o destino colocar a senhora na mesma festa que eu, faça o tipo distinto e alegre, se possível, use uma peruca grisalha. Seja discreta e assexuada, tenha poucas opiniões, se enturme com os mais velhos e trate os mais jovens como se fosse assim uma tia simpaticona, nada mais. Ria das historias deles e não conte nenhuma sua. Mãe não tem passado. Só fale de receitas, crianças. Se ofereça pra levar um vestido na costureira pra consertar, tenha bons endereços pra fornecer. Dicas de cozinha. Conte como era o mundo do seu tempo e depois dessa festa, vá correndo tomar um whisk duplo no bar do Bonju pra não ter um enfarte.
Neste dia mais que especial, desejo-te todo o amor, paz e alegria do mundo. Sou tudo o que voce e papai ensinou!!! Obrigado!
“Tudo o que está morto como fato, continua vivo como ensino.”
Ao som de: "Dear Mama - Tupac"
Ton Gadioli
